C&A existencial

    Eu sempre fui fascinada pela ideia de enviar cartas, sabe? Até mesmo ir à uma agência dos Correios me fazia ficar radiante pelo resto do dia. Comecei a enviar coisas somente 
aos dezoito anos, e desde então, nunca mais parei. Enviar, receber. Passar dias esperando pela entrega. Essa ansiedade, essa angústia pelo "depois". É exatamente esse tipo de inquietude que me move (pra frente ou para um salto num abismo, tem que saber dosar).
     Refletindo sobre o óbvio, vi que tudo sempre está transicionando dentro dessa gigantesca bolha de bad vibes em que nós vivemos. Segundo nossos poetas contemporâneos, "cada dia é um 7x1 diferente". Ah, essa filosofia de bar fresquinha que a internet te proporciona, num delivery sem taxas extras de entrega (até o momento, pelo menos). 
     Eu estive escrevendo, há algumas semanas atrás, sobre as pressões da vida universitária e do fardo de ser um "jovem adulto" em nossa sociedade. Depois da gigantesca crise existencial que isso tudo me rendeu, além do vazio interior (quase um Grand Canyon, diga-se de passagem), fiquei com um imenso ponto de interrogação na testa (também imensa, questão de escala).
     "Como passar por isso tudo e sair ileso? Como apresentar um problema sem soluções cabíveis?".
     Me senti mais estúpida do que se houvesse escrito uma receita de miojo com salsicha na redação do vestibular.
     Dentro da liquidez de nossas vidas, nada pode ser considerado, nem de longe, nem de leve, concreto. Seguro. Inabalável.
     Meu adorado polonês Zygmunt Baumann sangrou uma coleção inteira de material sobre o assunto, sobre a fragilidade das relações, do ego humano. E nem me faça falar do coração humano, lugar onde tudo possui alicerces feitos de palito de dente. Numa hora, existe, noutra, puff. Foi-se.
     Se a mudança é, de fato, a única constância do universo, o que podemos afirmar sobre a inconstância de nossas existências? Seria então, a mudança, a única constante inconstância que atinge a todos, pobres e ricos, sem distinção social? 
     Dentro dessa engrenagem, percebi mais que mudanças e transições. Percebi que sempre estamos correndo das necessidade interiores, dos vazios não preenchidos, dos romances não vividos e dos abraços não ofertados. Sempre tentando coisas, sempre aprendendo com os erros e errando devido aos acertos. Sempre almejando a mudança, o "cheiro de carro novo". 
     "Trocar de vida como quem troca de roupa", parafraseando a máxima popular. A vida pertence sempre aos mesmos indivíduos. Mas, e as roupas? Jogadas fora, para lavar? Ou apenas esquecidas num canto obscuro do guarda-roupa planejado?
     E se as roupas realmente existem, a troca já deixa de ser pauta discutível, questão crucial. Agora, cabe à todos nós descobrir aonde é o próximo provador.

Por Isabelle Iwamura
      
     
     
    

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