Pontos Finais - II/X

Desculpa por ontem, tá?

Tudo bem. Sabe que não me importo.

Eu tenho que crescer e parar de agir assim... — Temos 20 anos. Eu a ouço dizer isso desde os 17. 
Tento não julgar.

Não é questão de crescimento. Isso passa. Eu, por exemplo. Não posso ter um surto psicótico sequer. Meus pais já guardam as facas no alto do armário e ligam para o meu psiquiatra. E ninguém pergunta se eu estou à vontade ou não com isso.

                Ela ri. Olha pra carteira vazia ao lado. Karo ainda não chegou.

Acho que ela não vem hoje. Deve estar de ressaca.

Ela estava no Tausend com você, não é?

Como sabe?

Faz parte do roteiro “Brigas parentais de Aysel e Audo”. Primeiro, vem a crise econômica alemã. Depois, a filha que não faz nada da vida além de viver na boemia. No núcleo coadjuvante do melodrama, temos Karo Brachmann. Quando nossa protagonista, Hannah Ösdemir, está em crise por conta das brigas dos pais, Karo leva-a para um mundo de satisfação momentânea e inconsequente — ela me observa com os olhos céticos emoldurados pelos óculos de fina armação — do qual, apenas eu, Johann Schulz, serei capaz de salvá-la.

Engraçadinho...

Já entregou o relatório?

Sim, sim.

Quem fez pra você?

Eu mesma. Quem mais seria? — a observo em silêncio — Arslan fez pra mim. Já estava pronto há uns três dias. Eu só fiz imprimir.

Sabe que não terá a ajuda do irmãozinho pra sempre, não é?

Você só diz isso por que não tem um irmão engenheiro. — Sei que não falou para me ferir, mas feriu. — Desculpe. Não queria te fazer sentir mal.

Não se preocupe.

Já estava de pé, ajeitando a calça jeans e o casaco. Abaixei para amarrar os tênis. Eram pretos, modelo simples. Quando levantei, já não havia mais Hannah. Outro espécime feminino tomara o seu lugar.

Hans?

Johann, na verdade.

Bem, é que eu ouço a Hannah te chamar assim o tempo inteiro.

É uma piada interna.

Ah, tudo bem. — Emendou, constrangida — Então, teremos uma festa na próxima sexta. Será do outro lado do rio. Passo o endereço depois — Me esforço para parecer o mais interessado possível — Espero que vá.

Agradeço o convite.

                Saio da sala o mais rápido possível. Corre o boato de que Liesel tem um “ligeiro” interesse por mim. Nossas famílias se conhecem. Prefiro não arriscar.

                Ando pelo pátio em direção à saída do campus e meu telefone vibra no bolso de trás.

Toute Sweet. Hoje. Quatro da tarde. Traga a carteira.”

                
                Adoro a maneira como distribui seus pontos finais.


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