Pontos Finais - III/X

Como assim, não tem cerveja? — Bem que eu achei que “Toute Sweet” não parecia ser um nome apropriado para um lugar que poderia vender bebida alcóolica.

Sério? Você pede cerveja em um lugar chamado “Toute Sweet”?

                Viu? Sabia.

                Com um rolar de olhos da garçonete que aparentava ter seus trinta anos, pedimos alguns doces e café. Peço um café com cobertura de Rum e creme. É o mais próximo de “bêbado” que alguém pode ficar em uma confeitaria.  Duas fatias de Cheesecake são colocadas na mesa.

Ouvi boatos de que...

Liesel está interessada em mim. — o garfo escorrega da mão dela e bate na porcelana do prato de 
sobremesa. Os clientes olham para nós por alguns segundos e logo continuam a comer.

Pois é.

Está incomodada?

Por que estaria?

Tocando no assunto de repente...

Foi só uma observação.

Enfim. Ela veio falar comigo depois da aula, hoje mais cedo. Tem uma festa do outro lado do rio ou algo assim — Dou uma garfada no cheesecake — de qualquer forma, não estou interessado.

Se você diz... — Hannah beberica o café como se fosse um passarinho.

E o Arslan? Volta quando?

Não sei. Ele estava em Istambul semana passada. Talvez tenha que passar uma semana ou duas em Doha. Não sabemos ainda. — ela larga a xícara e passa alguns segundos observando o vazio — Minha mãe não gosta de ficar falando nele. Diz que sente ainda mais saudade.

                Aysel é a típica mulher turca casada com um alemão. Dona de casa dedicada, sentimental e regada em chorumelas.  Um filho que saiu de casa cedo demais, uma filha debaixo de suas asas e o filho mais velho que volta para a Turquia. Arslan, Hannah e Timur, respectivamente. Clássico e clichê.

Acha que ele volta para Berlim?

Sinceramente? Não. Está trabalhando numa dessas companhias petrolíferas. Deve estar rico, vive viajando “a trabalho”. Claro que eu não posso dizer isso para a minha mãe, acho que morreria. Arslan manda alguns dólares todo mês, uma caixa com alguns presentes de vez em quando. Sabe que não precisamos disso. Manda pra encher o coração da Anne de falsas esperanças. Baba nem fala mais nada sobre. Acho que ele já percebeu o mesmo que eu.

                Audo Müller, 56 anos. Trabalha na Volks desde o governo Weizsäcker. Nasceu na Alemanha oriental, é alto e loiro. E isso é tudo o que eu sei sobre ele. Hannah não fala muito sobre seu Baba.
                A língua coça e a pergunta não sai. “E Timur?”.  Nós nunca falamos sobre “Timmy”, apelido pelo qual Hannah se refere a ele.  Na verdade, eu nada sei sobre ele.


Mentira.

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